O desporto descarrilado

Guillaume Faye, in “L’Archéofuturisme

Os “deuses do estádio” da mitologia pré-guerreira morreram. À escala mundial, o desporto não é só uma indústria (o volume de negócios da FIFA é mais importante que o de França), é um lugar de corrupção generalizada, de doping, de salários fantásticos, e também uma parte do mundo do show business, e – novo ópio do povo num Ocidente sem religião – participa totalmente e é cúmplice da empresa de descerebrização generalizada.
O espectáculo desportivo infantiliza os espíritos, camufla as realidades sociais e os fracassos do político. O Campeonato do Mundo de Futebol de 1998 foi um brilhante exemplo. O pensamento oficial saudava a vitória francesa como a da “multirracialidade e da integração conseguida”, como o símbolo de uma “França que por fim triunfa”. Simulacro, mentira e dissimulação.

Alguns factos: fazer jogar juntos onze atletas de diferente origem étnica, todos muito bem pagos, constitui um “caso limite” que não demonstra qualquer “integração” na população; a integração desta equipa não é significativa da “França plural”, mas, pelo contrário, camufla debaixo de um falso exemplo o fracasso radical do melting pot republicano; apesar de a vitória ter sido atribuída aos negros e magrebinos da selecção nacional, os seus irmãos das “cidades periféricas” não estavam autorizados a entrar nos estádios, por “razões de segurança”! O facto de alguns adeptos “de cor” (principalmente raparigas, certamente) terem pintado a cara em “tricolor”, debaixo do olhar das câmaras, foi para a classe intelectual a prova de que “a França multirracial funcionava”: Que disparate! Exactamente como no Brasil, onde a sociedade multirracial é uma sociedade multirracista, a presença de vedetas futebolísticas “de cor” permite dissimular a realidade. Apenas ordenados as luzinhas da vitória desportiva, repetiam-se os motins nas “cités”, as lutas mortais nas ruas e nas escolas; em homenagem ao jogador kabil, naturalizado francês, Zinedin Zidane, viram-se várias bandeiras argelinas nos Champs Élysées, depois de duas vitórias da equipa francesa, os gangues étnicos enfrentaram várias vezes a polícia ou os hooligans britânicos, em motins urbanos em Paris e Marselha. Que belo êxito o da “integração”! Cúmulo das parvoíces (e do racismo): o Libération, órgão oficial do anti-racismo bem-pensante, criticou a equipa alemã por apenas contar com “jogadores loiros”, sem nenhum imigrante turco ou de outra origem, devido ao direito de sangue, e afirmou que a derrota alemã podia explicar-se por esta escandalosa “pureza étnica”.

De facto, a vitória de uma equipa multirracial de futebol permitiu tapar o fracasso concreto da integração, e em vez de favorecer a multirracialidade, desenvolveu mais um pouco o multirracismo.

Em que é que esta vitória da selecção francesa reduziu a “fractura social” e a “exclusão”? Em que é que contribuiu para criar empregos e impedir a emigração dos cérebros científicos franceses para a Califórnia? Em que é que intensifica a posição diplomática, política ou cultural da França no mundo (McDonald’s, patrocinador do Mundial…)? Em que é que mostra a superioridade de uma sociedade multi-étntica sobre uma mono-étnica? Em nada. Prostitui-se o desporto para acreditar em mentiras políticas.

A religião do futebol, as histerias colectivas que provoca, os disfuncionamentos psicológicos que engendra (adeptos que se arruinam para comprar uma entrada que custa três meses de salário), explicam esta função descarrilada do desporto de hoje: criar um sector económico lucrativo e um espectáculo de massas, cujo resultado é uma manipulação da consciência política. O sistema desvia o espírito das multitudes para a focalização teatral de acontecimentos irrisórios. Mais precisamente, através do desporto o sistema transforma um espectáculo neutro num acontecimento carregado de sentido.

O desporto moderno representa exactamente o mesmo que os jogos circenses da Roma decadente: “panem circensque”. “Rendimento mínimo garantido e futebol”. Mentir e fazer esquecer. O desporto moderno entra exactamente na mesma lógica, mas de maneira mais soft – já que temos medo do sangue e da “realidade” – que as empresas de gladiadores, esses escravos adulados e sobre-assalariados.