O desporto como circo

Guillaume Faye, in “L’Archéofuturisme

Assegura-se que é o desporto que evita as guerras porque cria confrontos simbólicos e pacíficos, neutralizando assim as pulsações nacionalistas. A história do futebol é uma mostra exacta do inverso, com uma litania de lutas mortais entre hooligans e ultras que avivam as paixões nacionalistas. Na Europa, o nacionalismo e o chauvinismo, que normalmente tenderiam a desaparecer, são avivados pelas paixões pelas selecções nacionais.
É de notar o embrutecimento mental e a infantilização provocados por esta raiva do desporto. É penoso ver a população masculina – e agora também a feminina – discutir com fervor sobre as façanhas ou o destino de equipas e de atletas que não terão nenhuma incidência sobre a sua vida nem sobre a da sua nação. As questões sem objecto e sem incidência mobilizam a atenção geral.

O desporto também mantém o fascínio mórbido pela força física bruta, que é o contrário da coragem física (a do soldado) e também pela “forma física”, porque os atletas de alto nível sofrem num organismo fragilizado pelo excesso de treino e o doping. Numa sociedade sem coragem física, esta é compensada pela adulação da façanha física quantitativa e sem qualquer interesse. Este culto da façanha cifrada, subproduto de um materialismo desatado – mias rápido, mais alto, mais musculoso, mais resistente, etc. – expressa-se no reino do record. Coloca-se num pedestal os indivíduos que bateram um record físico: é uma verdadeira animalização do homem, uma negação da sua dimensão cerebral. Mas, que raio, qualquer lebre, galgo, cavalo ou avestruz ultrapassaria Bem Johnson num sprint, qualquer chimpanzé ou canguru massacraria Tyson; e quanto ao record de salto em altura o especialista é o falcão, com uns 5500 metros.

Responderão que existem desportos que recorrem à inteligência, à astúcia e à coragem: o ténis, o esqui, a vela, por exemplo. Está bem. Mas, dois tontos que se devolvem uma bola por cima de uma rede, merecem uma focalização mediática tal? As façanhas dos trapezistas ou dos domadores de circo, comparativamente parecem tão admiráveis! E quanto aos “desportos extremos”, as regatas transatlânticas, a travessia do continente antárctico a pé (Para quando sobre as mãos?), ou do Pacífico a remo; tudo isto reflecte um gosto pela inutilidade, de aborrecimento, de futilidade. Já não há nada em jogo. Apenas alguns riscos (calculados) para se fazer notar pelos patrocinadores e pelos media. Antigamente, a regata dos barcos à vela, como a rota do Rum, tinha um sentido: trazer mais rapidamente possível os produtos para ser assim os primeiros do mercado. Hoje, estas regatas são façanhas insensatas, corridas sem meta, um trabalho sobre o vazio, um puro espectáculo remunerado, é como um trabalho de circo, mas sem o riso dos palhaços.

Curiosamente, os únicos desportos interessantes são os desportos étnicos, que não estão mundialmente mediatizados, como a pelota basca.

Assim, temos que condenar o desporto? Não, se for entendido como exercício físico de amadores e se servir para melhorar inteligentemente a higiene de vida e formar fisicamente os combatentes sobre o terreno. O desporto encontra-se assim finalizado, serve para algo. Os Jogos Olímpicos da Grécia antiga, que hoje perderam totalmente o seu sentido, não eram um “acontecimento desportivo”, mas um treino militar. Nenhum profissional, só amadores.

O desporto-espectáculo mundializado de hoje tem duas funções: criar falsos entusiasmos infantilizadores que neutralizem a consciência ideológica e política à volta de uma série de não-acontecimentos; e desenvolver um novo sector da indústria do espectáculo, muito pouco criador de emprego, muitas vezes mafiosa, mas dotada de imensos recursos financeiros, recursos que são aceites pelas massas.