A Causa dos Povos?

Guillaume Faye, revista “Terre et Peuple” nº18

A «causa dos povos» [do GRECE] é um slogan ambíguo. Foi inicialmente concebido num espírito politeísta para defender a heterogeneidade etnocultural mas desde então tem sido reclamado por ideologias igualitaristas e defensoras dos direitos humanos que enquanto exaltam uma ordem mundial utópica tentam culpabilizar os europeus por terem vitimado o terceiro mundo.

Falhanço de uma estratégia

Quando os identitários [do estilo do GRECE] tomaram a defesa da «causa dos povos» no início da década de 80, fizeram-no em nome do etnopluralismo. Esta causa, contudo, era pouco mais que uma artimanha retórica para justificar o direito dos povos europeus a preservarem a sua identidade num sistema mundial que pretendia transformar toda a gente em “americanos”. Ao resistir às forças de descaracterização cultural era esperado que os europeus, tal como os cidadãos do terceiro mundo, mantivessem o direito à sua diferença, fazendo-o sem terem de sofrer a acusação de racismo. Como tal o slogan assumia que toda a gente, inclusive os brancos, possuíam esse direito. No entanto assim que este argumento foi utilizado o cosmopolita Taguieff [um estudioso da extrema-direita], começou a referir-se a ele como «racismo diferencialista» [no sentido em que a diferença cultural e não a cor da pele se tornava o critério de exclusão].

Em retrospectiva, a estratégia da «nova direita» parece uma completa invenção, pois a «causa dos povos», o «direito à diferença», e o etnopluralismo foram todos virados contra os identitários. Mais, é irrelevante para a presente condição da Europa, ameaçada que está por uma invasão massiva de não europeus e por um Islão conquistador ajudados pelas nossas elites etnomasoquistas.

Reclamado pela ideologia dominante, voltado contra os identitários e tangencial aos problemas correntes, a estratégia etnopluralista do GRECE é um desastre metapolítico. Também mantém algo do antigo preconceito marxista, esquerdista-cristão acerca da “exploração” europeia do terceiro mundo. Como Bernard Lugan [africanista francês] mostra em relação à África negra, este preconceito é baseado em pouco mais que ignorância económica. A «causa dos povos» é no entanto associada com um altruísmo de tipo cristão que culpabiliza a nossa civilização, acusando-a de ter destruído todas as outras e fá-lo no exacto momento em que estes estão ocupados a preparar a destruição da nossa própria civilização.

O «direito à diferença»… qual direito? Não tivemos já demasiadas choramingueiras Kantianas [acerca dos direitos abstractos]. Existe apenas uma capacidade para ser diferente. No processo selectivo da História e da vida, toda a gente tem de sobreviver por si. Não existem protectores benevolentes. Este direito de sobrevivência, ainda mais, parece estar reservado a toda a gente menos aos europeus que, em nome do multiculturalismo ou de qualquer outra moda cosmopolita estão condenados a esquecerem a sua própria identidade biológica e cultural.

Este slogan tem outro perigo: ameaça degenerar numa doutrina, um comunitarismo étnico, sancionando a existência de enclaves não europeus nas nossas próprias terras, já que prevê na Europa comunidades de estrangeiros, particularmente muçulmanas que por óbvias razões demográficas terão um papel cada vez mais decisivo nas nossas vidas. Esta afronta à nossa identidade é acompanhada por argumentos sofistas que ridicularizam a “fantasia” de uma possível reconquista branca. Neste espírito é-nos dito que teremos de conviver com uma Europa multiracial, mas eu recuso viver assim, nem estou preparado para me retrair perante um alegado determinismo histórico cujo objectivo é transformar a Europa numa colónia do terceiro mundo.

A vida é uma luta perpétua

A «causa dos povos» faz agora parte dos argumentos dos direitos humanos. Por contraste a tese neo darwinista de conflito e competição, que assume que apenas os mais fortes sobrevivem parece aos olhos dos nossos comunitários de coração mole um vestígio de barbárie, mesmo se esse vestígio coincide com as leis orgânicas da vida. Esta tese ao reconhecer as forças de selecção e competição é por ela capaz de garantir a diversidade das diferentes formas de vida.

A «causa dos povos» é colectivista, homogeneizadora e igualitarista, enquanto o «combate dos povos» é subjectivista e heterogéneo de acordo com as propriedades intrínsecas da vida. Neste sentido apenas o nacionalismo e o choque das “vontades de poder” são capazes de manter os princípios de vida afirmativos da subjectividade. Dada a sua assumpção igualitária de que todos os povos têm o direito à vida, a «causa dos povos» prefere ignorar óbvias realidades históricas por um objectivismo que procura transformar os povos do mundo em objectos apropriados para uma exposição num museu. Assim implica a equivalência de todos os povos e civilizações.

Este tipo de igualitarismo toma duas formas básicas: uma é expressa num conceito homogéneo mas miscigenado do que significa ser humano (a raça humana), a outra procura preservar os povos e as culturas da mesma forma que um curador faria. Ambas as formas se recusam a aceitar que os povos e as civilizações são qualitativamente diferentes. Assim justificam a ideia absurda que temos de salvar povos e civilizações em perigo (pelo menos se forem do terceiro mundo) da mesma forma que salvaríamos uma foca em perigo. O processo turbulento de selecção da história não tem, no entanto, espaço para a preservação, apenas para subjectividades competitivas. No seu tribunal as doutrinas «salvacionistas» são simplesmente inaceitáveis.

A «causa dos povos» também assume uma solidariedade inerente entre a Europa e os povos do terceiro mundo. Mais uma vez isto não é mais que uma duvidosa construção ideológica que os «grecistas» inventaram no inicio dos anos 80 para evitarem a acusação de racismo. Eu não disponho aqui do espaço para desmistificar a teoria da «exploração do terceiro mundo», contudo explicar as dificuldades destes povos em termos puramente neo-marxistas como se fosse devido às maquinações do FMI, da Comissão Trilateral, do grupo Bilderberg ou qualquer outro belzebu, dificilmente merece resposta.

De acordo com os meios de comunicação e os académicos a «cultura do outro» está agora em estado de sítio em França, ainda que a «afromania» estenda a sua fúria. Eu, por outro lado, penso que não é de todo exagerado afirmar que a descaracterização da cultura europeia por influência norte-americana deixou de ser uma ameaça já que foi largamente ultrapassada por outras ameaças mais perigosas.

A Europa primeiro!

Eu respeito o destino dos, por vezes aflitos, esquimós, tibetanos, povos da amazónia, pigmeus, dos Kanaks, dos aborígenes, dos berberes, dos povos do Sahara, dos índios, dos nubianos, dos inevitáveis palestinianos e dos homenzinhos verdes de Marte. Mas não esperem lágrimas de crocodilo da minha parte. Quando a inundação ameaça a minha própria casa eu posso apenas pensar nos meus problemas e não tenho tempo para ajudar ou chorar por outros; além disso quando é que estes outros alguma vez se preocuparam connosco? Em qualquer caso os perigos que supostamente os ameaçam estão largamente exagerados, especialmente em vista do seu vigor demográfico, o qual, diga-se, é devido à medicina e ajuda ocidental – as mesmas forças ocidentais que alegadamente os exploraram também parecem tê-los tornado prósperos (ou pelo menos a reproduzirem-se em números sem precedente).

Se os nossos comunitários querem realmente defender a «causa dos povos», podem começar pelos europeus, que estão agora a ser assaltados pelas forças demográficas, migratórias e culturais do sobrepovoado terceiro mundo. Em face destas ameaças, não nos encontrarão a choramingar (como um padre) ou a fugir (como um intelectual) para a causa dos «outros». Nós próprios, sozinhos, seremos suficientes.