A essência do Arcaismo

Guillaume Faye, “L’Archeofuturisme” L’Aencre, 1998

É provável que somente após a catástrofe que fará desmornar a modernidade, a sua epopeia e a sua ideologia mundiais, que uma visão do mundo alternativa impor-se-á por necessidade. Ninguém terá a clarividência e a coragem para a aplicar antes da irrupção do caos. Cabe-nos por conseguinte, nós que vivemos no interregnum, o interrégno, de acordo com a fórmula Giorgio Locchi, de preparar desde já a concepção do mundo da após catástrofe. Ela poderá estar centrada no arqueofuturismo. Mas é necessário dar conteúdo a este conceito. É necessário voltar a dar à palavra “arcaico” o seu verdadeiro sentido, positivo e não pejorativo de acordo com o significado do substantivo grego arché que significa ao mesmo tempo “fundamento” e “início”, ou por outras palavras “impulso fundador”. Ela tem igualmente o sentido de “o que é criador e imutável” e refere-se à noção central de “ordem “. Atenção, “arcaico” não significa “passadista”, porque o passado histórico produziu a falhada modernidade igualitária, e por conseguinte qualquer regressão histórica seria absurda. É a modernidade que pertence já a um passado terminado. É o arcaismo um tradicionalismo? Sim e não. O tradicionalismo preconiza a transmissão dos valores e, a justo título, combate as doutrinas de “tábua rasa”. Mas tudo depende de quais tradições se transmitem. Não se pode aceitar qualquer tradição, por exemplo as das ideologias universalistas e igualitárias ou as que são estanques, museológicas, desmobilizantes. Convém seleccionar entre as tradições (os valores transmitidos) que são positivas e as que são prejudiciais.

Os desafios que agitam o mundo actual e que ameaçam de catástrofe a modernidade igualitária são já de ordem arcaica: o desafio religioso do Islão; as batalhas geopolíticas e oceanopolíticas para os recursos raros, agrícolas, petrolíferos, haliêuticos; o conflito Norte-sul e a imigração colonizadora para o hemisfério norte; a poluição do planeta e a discordância física entre os desejos da ideologia do desenvolvimento e a realidade. Todos estes desafios nos impelam para as perguntas imemoráveis, enviando-nos para os olvidados debates políticos, quase teológicos, dos séculos XIX e XX, que não eram mais do que discursos sobre o sexo dos anjos Por outro lado, como previu o filósofo Rayrnond Ruyer, odiado pela intelligentsia da margem esquerda, nas suas duas obras-chave, Os danos ideológicos e Os cem próximos séculos, o parêntese dos séculos XIX e XX uma vez fechado, uma vez as alucinações do igualitarismo naufragando na catástrofe, a humanidade retornará aos valores arcaicos, ou seja, muito simplesmente biológicos e humanos (antropológicos): definição dos papéis sexuais, transmissão das tradições étnicas e populares, espiritualidade e organização sacerdotal, hierarquias sociais visíveis e enquadradas, culto dos antepassados, rituais e provas iniciáticas, reconstrução de comunidades orgânicas percorrendo desde a esfera familiar ao povo, desindividualização do casamento e das uniões que impliquem a comunidade tanto quanto os cônjuges, fim da confusão entre erotismo e conjugalidade, prestígio da casta guerreira; desigualdade dos estatutos sociais, não implícita, o que é injusto e frustrante, como actualmente nas utopias igualitárias, mas explícita e ideológicamente legitimada; proporcionalidade dos deveres aos direitos; decisões judiciais de acordo com os actos e não de acordo com os homens, responsabilizando estes últimos; definição do povo e de qualquer grupo ou corpo constituído como comunidade diacrónica de destino e não como uma massa sincrónica de átomos individuais, etc.

Resumidamente, os séculos futuros, no grande movimento pendular da história que Nietzsche denominava “o eterno regresso do idêntico”, retornarão de uma maneira ou outra a estes valores arcaicos. O problema, para nós, Europeus, está não em, por pusilanimidade, deixar-nos submeter pelo Islão – o que está, subrepticiamente, a acontecer -, mas em impôr de novo esses valores a nós próprios, recuperando-os da nossa memória histórica. Recentemente, um grande proprietário de imprensa francês – que não posso nomear -, conhecido pelas suas simpatias esquerdisto-liberais, fazia-me, em substância, esta aterradora observação: “os valores da economia de mercado estão a perder gradualmente em relação aos do Islão, porque estão assentes exclusivamente sobre a rentabilidade económica individual, o que é inumano e efémero.” A nossa tarefa é de fazer com que não seja o Islão que nos imponha o inevitável regresso ao real. Evidentemente, a ideologia hoje hegemónica – mas sem dúvida não por muito mais tempo – encara como diabólicos estes valores. Exactamente como um louco paranóico vê o psiquiatra que o trata as feições do demónio. Na realidade são valores de justiça. Conformes com a natureza humana desde tempos imemoráveis, estes valores arcaicos recusam o erro da emancipação do indivíduo, cometido pela filosofia das Luzes que conduziu ao isolamento desse indivíduo e à crueldade social. Estes valores arcaicos são justos, na acepção dos antigos Gregos, porque designam o homem por aquilo que ele é, um zoon politicon (”animal social e orgânico inserido na cidade comunitária”) e não por aquilo que ele não é, um átomo assexuado e isolado munido de direitos universais e imprescritíveis. Concretamente, estes valores anti-individualistas permitem a auto-realização, a solidariedade activa, a paz social, ao contrário do individualismo pseudo-emancipador das doutrinas igualitárias que conduz apenas à lei da selva.

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